Da varanda de casa tenho uma linha de visão até ao horizonte. É uma sensação de pequenez quando tento alcançar com a vista aquilo que ela não alcança, e uma sensação de grandeza quando vislumbro o panorama, e sigo com os olhos as nuvens e o céu até onde se juntam ao mar e se tornam num só tom de azul esbatido.
Lá longe, ao fim do dia, vêem-se as luzes de faróis da margem sul, e algumas luzes de navios que passam por perto da costa. E quando se levanta uma leve neblina, as luzes difusas pela humidade enunciam um ar misterioso.
É daqui que escrevo muitas vezes, sentado nesta varanda a contemplar o mar, a ouvir o som das gaivotas e as ondas a bater nas rochas, como se tentassem acordar um ser adormecido pelo desgaste do tempo, de tantas vezes que batem e batem e insistem.
Agora, acompanhado por um trago de rum envelhecido e um quadrado de chocolate negro com gengibre cristalizado (chocolate de S. Tomé e Príncipe), penso em outros tempos que sonhava velejar mar dentro, em busca de aventuras e sonhos perdidos.
Viajar sempre foi, e é um grande prazer que procuro exercer sempre que posso. Conhecer outras gentes e diferentes culturas é um estímulo para continuar a olhar em frente e acreditar no mundo. Faz-me gostar mais dos outros, mais de mim, e compreender melhor minha terra de origem. Mas já não me sinto Português, sinto-me como Sócrates (o filósofo grego, entenda-se) que tal como ele, não me sinto português nem europeu, mas um cidadão do mundo. Sinto uma capacidade inata de me adaptar a estilos diferentes de vida, e um gosto imenso por experimentar diferentes culturas.
Poderia afirmar que é uma questão genética, quer paterna ou simplesmente da antiga raça lusitana que por esse mundo fora navegou e se estabeleceu. Mas talvez seja, simplesmente, uma condição inata desenvolvida nos tempos de vida que passei noutros locais, e do que esses locais me trouxeram.
Não sinto as raízes fortes que outras pessoas me descrevem ter, mas sinto as raízes sólidas das amizades que se foram formando com o tempo. E onde elas estiverem, é onde me sentirei mais em casa.
Bebo mais um trago deste rum, e provo mais um pedaço do chocolate negro de gengibre. Sinto a sua textura pouco suave enquanto oiço o leve som do estalar do chocolate, deixo-me levar pelo sabor envolvente de um chocolate tratado com mestria, sinto o leve picar do gengibre, e absorvo lentamente os aromas libertados enquanto se desfaz na minha boca, gentilmente apertado entre a língua e o palato. E na combinação de todos estes sentidos, velejo mentalmente até S. Tomé e Príncipe, na busca de mais uma aventura.
Chegas…
Chegas tão suavemente, pisando as nuvens de algodão, e tocas-me ao de leve no ombro…
Sentas-te ao meu lado, e embarcas comigo nesta viagem…
Falas coisas loucas, premeditadas, sabendo de antemão que tomarei o leme com a agilidade de um velho lobo do mar…
Subimos à gaivota, e ficamos parados no tempo a observar o sol cor de sangue que teima em ficar no horizonte como que a iluminar-nos igual a uma vela.
Bebes um gole de rum, e ouço o doce estalar do chocolate na tua boca, que provo.
E sabes-me a sonho…
Paulo Sérgio Ferreira
Parabéns Paulo...
ResponderEliminarestá simplesmente fantástico..
susana santos
Esse é o caminho... Continue! Se acredita em Deus, então acredite que tem um dom divino...
ResponderEliminarBoa viagem... e que os ventos lhes sejam sempre favoráveis... são os votos sinceros de muita gente que o conheceram nestes últimos meses...
JR